DOISÉLLES

UMA HISTÓRIA DE
RAQUELL GUIMARÃES

Faço tricô e crochê. É o que posso fazer de melhor. Como uma típica mineira, fui iniciada na escola de todas as prendas, e me saí bem nessa coisa de tramar a lã no inverno e o algodão no verão – tecer, laçar, arrematar e dar um nó invisível. Gosto disso de pontos e nós. Formas que surgem do desenho de um fio em um par de agulhas, bem ali na minha mão. O tricô é a minha composição no mundo, é o meu mundo, por onde transito meus pensamentos e ideias. Tudo que vejo, sinto, escuto e leio vira tricô.

Decidi estudar moda, em parte por ter vivido toda a infância e adolescência nas fábricas têxteis de meu pai e meu avô, e em outra parte por gostar mesmo de roupa e da importância que ela tem. E tratei de fazer tudo à mão, porque era como eu sabia fazer. Pensei a Doisélles  como uma marca só de tricô e crochê, feitos em laçadas milenares mas com agulhas grossas e modelagens amplas. Nada de casaquinho da vovó com a cava no lugar e seis botões de pérolas: a nossa trama é metida a moderninha. E digo mais: feita por homens, por presidiários. Como assim? Simples.

Quantas pessoas você conhece que sabem tricotar (me dê o telefone de todas elas!)? Por ser uma coisa que mais ninguém aprende a fazer hoje em dia, eu precisava treinar pessoas para produzir comigo. Quando abri a empresa éramos só eu e minha mãe contando com a ajuda de umas vizinhas que pegavam uma ou outra encomenda, enquanto tomavam conta dos netos. Seria impossível prosperar naquele ritmo.

 

Eu sabia que precisaria ensinar esse ofício a um grupo de pessoas. Alguém que quisesse e precisasse aprender uma profissão. Foi assim que fui parar num presídio de segurança máxima com minhas agulhas e tesouras. Treinei 40 homens. Eles foram tomando gosto pelo tricô, até mesmo por moda de uma maneira geral. Meus meninos, que quando eu cheguei lá mal sabiam diferenciar blusa de camisa, hoje sabem até quem é John Galliano. Eles amam, vibram, se amarram em moda! São essas voltas da história que compõem nossa trama.

E eu te convido para conhecer ao vivo, tocar e sentir.