FLOR DE LÓTUS / Flor de Lótus
I. EMANAÇÃO
Todos nós, aqui, nesta condição demasiadamente humana, precisamos de um componente para florir o caminho: o sonho. Sonhar é uma forma de acreditar com magia. Acreditar com magia é ter fé.
Eu sonho, acredito e tenho fé na mudança. Seja ela total ou parcial, singular ou plural, pequena ou grande. De preferência de dentro pra fora ou até mesmo de fora pra dentro.
Por pensar assim, por sentir assim, por ter nascido sob o sol de aquário, por observar os movimentos da natureza, por me emocionar com a borboleta que era lagarta ou simplesmente por rejeitar o status quo eu decidi começar esse projeto.
E como tudo, antes de ser tudo, era só uma pequena semente, uma idéia longínqua, um pensamento que ficava em pé na reunião de pensamentos que povoavam nosso universo particular. Foi assim que esse projeto nasceu sem pretensão. Pulou pra fora do bom e velho saco de conversa jogada fora, na mesa de um café, diante de um amigo que me encanta cada vez mais pela maneira com que firma virtudes e valores humanos dentro da vida política: o vereador Flávio Cheker.
E se sonhar junto não é mais sonhar, já é realizar, ele, como presidente da Comissão dos Direitos Humanos e eu, como empresária, unimos nossas vontades para concretizar uma parceria entre a iniciativa privada e o Estado na busca pela valorização da mão-de-obra carcerária.
II. CRIAÇÃO
O projeto foi concebido e justificado dentro da Lei de Execução Penal (LEP – Lei nº 7.210/84: art 28) que diz: “O trabalho do condenado, como dever social e condição de dignidade humana, terá finalidade educativa e produtiva”. Afinal, este micro-sistema de poder e sujeição, como explica Foucault, também se submete aos elevados ditames constitucionais. E a Constituição da República é suficientemente clara quando inaugura o Título I, referente aos Princípios Fundamentais, enunciando que o Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamento a dignidade da pessoa humana, dentre outros (art. 1º, III). Além disso, este generoso e imenso continente chamado Brasil ainda estabelece em sua Lei Maior que constitui seu objetivo fundamental construir uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I).
Num primeiro contato com a direção da penitenciária, fomos encorajados a realizar alguns testes com a mão-de-obra masculina para o trabalho. Estranhei a proposta por nunca na vida ter visto um homem fazer tricô e crochê, mas eu estava ali para ver coisas que nunca na vida eu tinha visto.
Tivemos o contato direto com os presos para fazer a seleção inicial dos que estariam aptos a ingressar no treinamento proposto. O primeiro contato deles com as agulhas seria algo que beirava o impossível. Um desconforto geral entre homem e ferramenta.
Mas nada é mais impressionante do que a FORÇA DE VONTADE. Nada é mais forte que o DESEJO de reverter uma condição. Nada é mais bonito do que provar que tudo é possível
III. FORMAÇÃO
Levei comigo, todas as manhãs da primeira semana de treinamento, uma frase de Dostoievski para sustentar toda a paciência e naturalidade que eu precisaria estar munida para um mergulho dentro de uma oficina com 20 presos, 20 tesouras e 20 pares de agulhas: “um ato de confiança dá paz e serenidade”.
A revelação do que eles seriam capazes não demorou mais do que um dia. A rapidez com que eles aprenderam os movimentos dos pontos básicos do tricô garantiu que rapidamente, muito antes do tempo inicialmente previsto, já estivessem computando a produção e remindo a pena (cada 3 dias trabalhados garante 1 dia de remissão
IV. AÇÃO
Hoje a Doiselles tem uma unidade de produção dentro do pavilhão 1 da PENITENCIÁRIA PROFESSOR ARIOSVALDO DE CAMPOS PIRES, onde 18 detentos condenados em regime fechado trabalham com excelência na produção de peças artesanais feitas com técnicas de tecelagem manual: tricô e crochê, que são inspecionadas por rígido controle de qualidade tipo exportação.
A felicidade da parceria é legitimada pela certeza de que ambas as partes estão ganhando, crescendo e melhorando todos os aspectos que as envolve.
Relembramos as lições do jurista italiano Francesco Carnelutti em sua clássica obra “As Misérias do Processo Penal”:
O delinqüente até que não seja encarcerado, é uma outra coisa, a que o autor sente horror, mas quando ele é algemado, a fera se torna homem. Não se pode fazer uma nítida divisão dos homens em bons ou maus. Infelizmente a nossa curta visão não permite avistar um germe do mal naqueles que são chamados de bons, e um germe de bem, naqueles que são chamados de maus. Basta tratar o delinqüente, antes que uma fera, como um homem, para descobrir nele a vaga chamazinha de pavio fumegante, que a pena, ao invés de apagar, deveria reavivar.
E quando me interrogam se com tudo isso quero testar o meu nível de pretensão, respondo apenas dizendo que não pretendo competir com o crime. Este não é o meu papel e muito menos a minha missão. Quero (e isso eu já estou conseguindo) mudar o dia do sujeito enquanto cumpre sua pena, enquanto paga à sociedade o dano que lhe causou, seja ele qual for.
O maior valor de um homem é a liberdade. Quando ela lhe é tirada por falta de merecimento, o seu maior bem passa a ser o tempo. A ociosidade, por sua vez, joga no sentido contrário do que todos querem nessas situações, com todas as implicações inerentes ao potencial maligno que uma mente vazia, desestimulada e sem perspectiva pode chegar a alcançar.
Portanto me parece óbvio que ocupar estas mãos e mentes com trabalho digno é um caminho firme na ajuda do maior principio que inspira o cárcere: a recuperação.
