Com vocês, inverno 2016!!!

RELEASE DA COLEÇÃO

Comemorei 30 anos de agulha neste desfile. Com vcs, inverno 2016.

Há quem chame de fuga. Talvez seja. Eu prefiro dizer que é o inverso da fuga, é pura presença. Fugindo eu estava quando vivia na cidade. Aqui no campo não preciso fugir do trânsito, da fila nem da chuva. Aqui no campo é puro estado de presença. Coisas simples, essenciais. Agora me livrei de todos os penduricalhos e me liguei, como nunca, à pura necessidade dos objetos. Se calço uma bota é realmente por causa do barro, da cobra ou do suor do cavalo.

Fiz um ninho para alimentar meu filhotes dentro da natureza. Aqui somos mais humanos, mais selvagens e mais nós mesmos. Nossa casa é um solar centenário, o assoalho range, a água vem aquecida por serpentina direto do fogão à lenha, o pé direito tem 5 metros e o forro do telhado é palha trançada embaixo de telha artesanal.

Um iluminado disse que a simplicidade é o ultimo grau da sofisticação. Adoro isso. Em cima disso criei meu conceito de luxo: autenticidade e despojamento. Despojamento me lembra desapego.

Estar integrado com a natureza significa entender os ciclos, respeitar a ordem das estações e perceber que o apego não faz o menor sentido em um mundo que, por natureza, é constante movimento e mudança. “Não se apegue a está flor”, diz a natureza, “o outono vem aí”, ela conclui.

Mesmo no campo eu continuo preocupada com um design cosmopolita.
A diferença é que agora crio dentro de um paiol transformado em ateliê. Uso menos a internet (tenho o setor comercial em São Paulo para fazer isso por mim) e desenho à beira de um lago, depois teço na velha e boa cadeira de balanço que foi de minha avó.

As peças da Doisélles continuam sendo amplas para que jamais apertem, de textura suave para que envolvam aquecendo e afagando a pele.

Na cartela de cor tem o meu básico: Tricô pra mim é preto, off, mescla, marinho e pink. Em  30 anos de agulha e 10 anos de marca já sei que é isso que funciona. Fica mais fácil comprar o fio, estocar o fio, reaproveitar o fio… Nem imagino qual seja a cor da estação. Quem é o novo preto? Não sei. Talvez isso seja um luxo ou o cúmulo da pobreza fashion, mas sinceramente… Who really cares? Tendência é respeitar o outro e amar o próximo. Quem se lembra do Pacheco que disse que moda deveria ser ajudar os outros? Sonho com o dia em que Pacheco possa vir aqui, tecer ao meu lado, neste paiol. Este dia vai chegar. Que fique registrado.

Aqui em Ipoema, eu assumo de vez meu lado oposto ao fast Fashion. Nunca fui tão slow… O meu tempo é o tempo do boi. Já viu vaca com pressa? Minhas búfalas as vezes até correm, mas é de alegria, igual aos cães, tenho certeza!

Meus gatos caçam. Acho lindo ver seus pulos. Fico por horas só observando o movimento deles nessa natureza toda que parece o começo dos tempos.

Essa coleção veio falar disso. Deste sonho que Elis Regina meteu em mim. Sim, sempre quis uma casa no campo do tamanho ideal pau a pique e sapé.
Vim aqui plantar meus amigos, meus livros discos porque queria ficar do tamanho da paz, compor meus rocks rurais com carneiros e cabras pastando solenemente no jardim.  Sim, eu queria ter somente a certeza, dos amigos do peito e nada mais.

Claro que crio para uma mulher urbana, uma mulher que fui até bem pouco tempo atrás. Assim como você, também morei em edifícios com torres de mais de 20 andares, sorri para a poesia concreta de algumas esquinas, tomei muito metrô, muito avião e muito pó de asfalto misturado com fumaça de óleo diesel. Vi letreiros em néon apelando, piscando e berrando ordens de consumo. Carimbei meu passaporte de Heatrow a Narita. Nada de tão ruim nisso. Pelo contrário.

De volta a Minas, depois de 15 anos vendo tudo que eu precisava ver, amadurecer e entender, chegou para mim a maternidade.

“Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal”

Grávida de meu segundo filho e adotando um terceiro, revi o motivo pelo qual as pessoas se sujeitam aos apartamentos, aos carros e às filas de restaurantes, olhando o semblante emburrado e bicudo delas diante de uma tela de celular eu pedi pra sair. Capitão Nascimento, quero sair. Moço da roda gigante, pode parar, vou descer.

Vim embora para Ipoema, vim morar em uma casinha branca com janela de madeira. O ateliê ficou envolto pelo silêncio das línguas cansadas e conheci o prazer diário de colher do pé as frutas do café da manhã, beber água que acabou de brotar.

Meus filhos hoje sabem que a água nasce, a galinha não é azul (como aquela popstar pintadinha que canta), eles conhecem a peppa de verdade e vamos todos pular nas poças de lama após a chuva.

CRÉDITOS FOTOGRAFIAS: ROBERTA BRAGA/SILVIA BORIELLO/RICARDO K.

http://dfhouse.com.br/desfiles/dfb-2016/doiselles

 

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